Porque é que a sua casa no Algarve cria bolor no inverno, e porque quase nunca é uma fuga

Chega a casa em abril, abre a porta e o cheiro está estranho. Não é a esgoto, é uma coisa mais antiga e mais próxima. Atrás do roupeiro do quarto voltado a norte há uma mancha cinzenta na parede. No teto por cima do duche, pintas pretas. A tinta do exterior da parede norte está a descascar em placas.

O primeiro pensamento de quase todos é uma fuga de água. Na nossa experiência, no sotavento algarvio, quase nunca é.

O que normalmente é: uma casa que esteve fechada e sem aquecimento de outubro a abril, num clima onde a humidade do inverno é muito mais alta do que a maioria imagina, com paredes frias e ar que não tem por onde sair. É um problema de ventilação, e a boa notícia é que problemas de ventilação são baratos de resolver. A má notícia é que, se tratar isto como um problema de tinta, vai voltar a pintar a mesma parede todas as primaveras enquanto tiver a casa.

Porque é que as casas do Algarve criam humidade quando não há ninguém lá

As pessoas escolhem viver aqui pelos trezentos dias de sol e assumem, com razão à vista, que a humidade pertence ao país de onde vieram. Os números dizem o contrário. Segundo dados do IPMA, a humidade relativa em Portugal no inverno anda entre os 90 e os 100 por cento. É esse o ar que está encostado às suas paredes durante metade do ano.

Dentro de casa, qualquer valor acima de cerca de 60 por cento de humidade relativa já conta como excesso de humidade no ar. Uma casa fechada não fica magicamente abaixo disso. Equilibra-se com o exterior, devagar, e depois qualquer superfície fria por dentro passa a ser um sítio onde essa humidade volta a transformar-se em água.

Junte a isso o tipo de construção da zona. Muitas casas do centro de Tavira e quintas à volta de Santo Estêvão e da Luz de Tavira têm paredes maciças, muitas vezes de cal, sem caixa de ar e sem isolamento. Uma parede maciça no lado norte de um edifício, em janeiro, sem ninguém a aquecer a casa, está fria de um lado ao outro. O ar quente e húmido toca-lhe e condensa. É este o mecanismo inteiro, e explica porque é que o bolor aparece sempre nos mesmos sítios.

Os três tipos de humidade, e como distingui-los

Perceber isto bem decide se vai gastar cinquenta euros ou cinco mil, por isso vale a pena dez minutos antes de telefonar a alguém.

Tipo Onde aparece Sinal que a denuncia
Condensação Paredes voltadas a norte, cantos de divisões, atrás de mobiliário, tetos por cima de duches, interior de roupeiros Bolor em pintas pretas e não em mancha. Pior no inverno, melhor no verão. Vidros embaciados de manhã
Humidade ascensional Uma faixa na base da parede, normalmente até um metro de altura, quase sempre só no rés do chão Uma marca com um limite superior bem definido. Sais e reboco a levantar. Presente o ano inteiro
Infiltração Uma mancha definida, muitas vezes numa parede exterior, sob uma janela, por baixo de um terraço ou junto a um beiral Aparece ou agrava-se um ou dois dias depois de chuva forte. Tem um contorno que se consegue desenhar

A que interessa numa casa que fica fechada é quase sempre a primeira. A condensação é a causa mais comum de humidade dentro de casa em Portugal, e é a única das três que se resolve principalmente com hábitos e não com obra.

Um teste rápido: compre um higrómetro, dos que custam menos de quinze euros, e ponha um na divisão mais afetada. Se marcar acima de 60 por cento durante a maior parte do inverno e o bolor for em pintas e não em mancha, tem um problema de condensação e pode parar de procurar uma fuga.

A armadilha da remodelação

Esta é a parte que apanha quem gastou mais dinheiro, e vale a pena entendê-la antes de aceitar qualquer orçamento de caixilharia.

Uma casa antiga algarvia deixa entrar ar. Caixilhos de madeira que não fecham bem, frinchas por baixo das portas, uma chaminé aberta, uma caixa de estore que assobia. É fria e com correntes de ar, e cada uma dessas frestas está a ventilar o edifício continuamente, de graça, todo o inverno.

Depois alguém remodela. Janelas novas de PVC com vidro duplo, portas vedadas, a lareira fechada ou com recuperador. A casa fica de repente quente, confortável e silenciosa. E começa a criar bolor em divisões que nunca o tiveram.

A remodelação não criou a humidade. Retirou a ventilação que a estava, sem se notar, a levar para fora.

O erro que costuma seguir-se é previsível: tenta-se resolver a condensação com isolamento por dentro na parede fria. Em geral piora as coisas, porque a humidade encontra caminho para trás do isolamento e fica ali, fora da vista, encostada à mesma superfície fria. Se há uma coisa para levar deste artigo, é esta: a condensação resolve-se com movimento de ar e calor, não tapando o sintoma atrás de uma placa.

Arejar à hora certa, não só arejar mais

Toda a gente sabe que deve arejar a casa. Quase ninguém lhe diz quando, e aqui a altura importa mesmo.

Está a tentar troçar ar húmido de dentro por ar mais seco de fora. No inverno, o ar exterior está mais seco e mais quente ao meio da tarde, por isso é essa a hora de abrir tudo. Abrir as janelas às sete da manhã em janeiro traz ar praticamente saturado, o que não resolve quase nada. No verão é o contrário: de manhã cedo e ao fim do dia, nunca ao meio da tarde.

Curto e largo bate longo e estreito. Dez minutos com janelas abertas em dois lados da casa move muito mais ar do que uma janela em báscula durante três horas, e arrefece muito menos as paredes, que é exatamente o que se quer.

Os outros hábitos que fazem diferença a sério: manter as tampas das panelas postas e usar o exaustor a cozinhar, ligar o extrator da casa de banho durante e depois do duche, manter a porta da casa de banho fechada enquanto o vapor se dissipa em vez de o empurrar para o corredor, e nunca secar roupa dentro de casa sem abrir uma janela. Roupa a secar num estendal por dentro são vários litros de água a irem direitos para a divisão.

Roupeiros, cantos e os sítios onde o ar nunca chega

O bolor cresce onde o ar está parado, e é por isso que aparece num conjunto muito previsível de sítios.

  • Atrás de roupeiros e cabeceiras encostados a paredes exteriores. Afaste o mobiliário uns centímetros da parede. Esse espaço resolve, por si só, muitas casas.
  • Dentro de roupeiros embutidos. Deixe as portas ligeiramente abertas quando a casa está vazia, não os encha por completo, e ponha uma caixa absorvente de humidade lá dentro.
  • Cantos de divisões no lado norte, mais frios do que o meio da mesma parede porque o calor escapa em duas direções ao mesmo tempo.
  • Atrás de cortinados longos encostados a uma janela fria durante todo o inverno.
  • Debaixo das camas e dentro de caixas de arrumação nas divisões do rés do chão.

Se está a fechar a casa para o inverno, esta lista é a sua rotina de fecho. Mobiliário afastado das paredes, portas de roupeiros abertas, caixas absorventes nas divisões piores, cortinados afastados em vez de fechados, e portas interiores abertas para que a casa se comporte como um volume só em vez de seis caixas seladas.

Limpar o bolor sem o piorar

Se já está lá, limpe-o bem antes de pintar, porque pintar por cima de bolor vivo é uma decoração temporária.

Use luvas, máscara e proteção para os olhos. Perturbar o bolor liberta esporos, e fazer isso numa divisão sem ventilação onde acabou de entrar é como se apanha uma semana de tosse depois de chegar de férias. Abra as janelas primeiro.

Lixívia diluída, vinagre branco ou soluções de bicarbonato funcionam bem em bolor de superfície sobre parede rígida. Aplique, deixe atuar, limpe, e deixe a parede secar por completo antes de qualquer outra coisa. Os tecidos são diferentes: almofadas, cortinados e colchões com bolor normalmente precisam de ser lavados ou substituídos, não limpos com pano.

Só depois disso é que se trata da decoração. Numa parede com histórico de condensação, a sequência que dura é tratar, secar por completo, selar com primário adequado e pintar com um acabamento respirável. Aditivos antibolor ajudam, mas estão a comprar tempo numa parede que continua a ficar fria, não a resolver a física do problema. Onde a tinta falha repetidamente numa parede exterior norte ou num teto de terraço, isso é um trabalho de pintura e preparação e não um trabalho de lata de tinta, porque a maior parte do valor está na preparação.

Casas de banho: silicone, juntas e o teto do duche

A casa de banho é onde um problema geral de humidade se transforma num problema de manutenção com solução clara.

Juntas pretas e silicone escurecido à volta de uma base de duche normalmente já não são sujidade nessa fase. O silicone tem vida útil, o bolor entra por baixo, e nenhuma esfrega o traz de volta depois de colonizado. Retirar o cordão antigo e substituí-lo bem, com a base seca, é um trabalho de uma a duas horas que transforma o aspeto de uma casa de banho e impede a água de chegar à parede por trás.

As juntas são a mesma história, só que mais lenta. Onde estiverem moles, escuras ou em falta em alguns pontos, a água está a passar por trás dos azulejos, que é como começam os azulejos soltos. Raspar e refazer as juntas de uma zona de duche não é glamoroso e é um dos pequenos trabalhos com maior retorno numa casa algarvia.

Se o teto por cima do seu duche está com pintas, veja o extrator antes de qualquer outra coisa. Muitos não estão ligados a nada, estão ligados a uma conduta que se soltou dentro do vão, ou simplesmente nunca são ligados porque o interruptor está associado à luz e o hóspede apaga a luz ao saír. É um trabalho de azulejos, juntas e humidade com uma verificação do extrator incluída, e normalmente é meio dia.

Estores, redes e a ventilação que já tem em casa

A maioria das casas por aqui já tem o equipamento para resolver isto, e está avariado.

Um estore que não sobe porque a fita partiu significa que aquela janela fica fechada todo o inverno, e essa divisão deixa de ventilar. Uma rede mosquiteira com um buraco significa que o proprietário não vai deixar a janela aberta. Uma janela que não fecha bem fica trancada em vez de ser usada. Uma caixa de estore com uma fresta deixa entrar ar húmido para dentro da caixa de ar da parede acima do caixilho.

Vemos isto constantemente: um problema de bolor num quarto específico, cuja origem afinal é uma única fita de estore partida que ninguém teve tempo de arranjar há dois invernos. Reparar estores, persianas e redes mosquiteiras é barato, e é muitas vezes a verdadeira solução para o que o proprietário descreveu como um problema de humidade. O mesmo vale para portas e janelas que já não fecham bem ou já não abrem, o que numa cidade costeira costuma ser corrosão pelo sal nas ferragens e não nada estrutural.

Se a casa fica meses fechada

Os proprietários ausentes têm uma vantagem e uma desvantagem. A desvantagem é óbvia. A vantagem é que uma casa fechada não tem vapor de duche, nem cozinha, nem roupa a secar, por isso a única humidade que entra vem de fora e sobe do terreno.

O que resulta, por ordem de quanto pesa em relação ao custo:

  1. Alguém abrir a casa. Uma hora por mês com janelas abertas dos dois lados, ao meio da tarde, faz mais do que qualquer aparelho.
  2. Portas interiores deixadas abertas, para o ar circular em vez de ficar parado em seis divisões separadas.
  3. Mobiliário afastado das paredes exteriores e portas de roupeiros entreabertas. De graça.
  4. Caixas absorventes de humidade nas divisões piores e dentro dos roupeiros. Baratas, e precisam de ser substituídas quando enchem, que é a parte que se esquece.
  5. Um desumidificador com temporizador, se a casa tiver corrente e alguém para o esvaziar ou se puder drenar de forma contínua. É eficaz, mas é um apoio, não substitui as trocas de ar.

O caso a que somos chamados com mais frequência é a casa que foi vista uma vez em fevereiro por um vizinho que entrou, olhou em volta e saiu sem abrir nada. Uma visita que não inclui abrir o edifício não é uma verificação de humidade. As visitas de manutenção programadas existem precisamente porque é nessa lacuna que nasce a surpresa da primavera.

Quanto custa resolver isto

Ordens de grandeza e não orçamentos, porque cada parede é diferente.

Trabalho Escala habitual
Reparar fita de estore ou rede mosquiteira que restaura a ventilação Uma única visita curta
Retirar e substituir o silicone do duche Uma a duas horas
Raspar e refazer as juntas de uma zona de duche Meio dia
Tratar, selar e repintar uma divisão afetada Meio dia a um dia, mais tempo de secagem
Verificar, reconectar ou substituir o extrator Parte de um meio dia
Abertura completa pós-inverno com lista de anomalias Um dia inteiro na maioria das casas

A maior parte do que está nesta página é trabalho de meio dia. Vale a pena saber isto, porque muitos proprietários adiam sob a ideia de que humidade significa obra grande, e depois passam três anos a vê-la espalhar-se. A nossa página de preços explica como os meios dias e os dias inteiros são cobrados, e a página de zonas mostra onde a deslocação está incluída.

Quando não é condensação

Chame alguém com mais do que um pincel quando vir qualquer um destes sinais.

  • Uma marca com um limite horizontal bem definido na base de uma parede, com sais ou reboco a levantar. É humidade ascensional e precisa de diagnóstico próprio.
  • Uma mancha que aparece ou cresce no espaço de um dia depois de chover. É água a entrar de fora, e a solução está no exterior.
  • Humidade quente, ou humidade numa parede partilhada com uma casa de banho ou cozinha, que pode ser uma fuga e não condensação.
  • Bolor a voltar semanas depois de um tratamento e pintura em condições, o que significa que a origem da humidade nunca foi resolvida.
  • Humidade numa parede partilhada com uma propriedade vizinha, o que traz o seguro e, possivelmente, o processo de responsabilidade partilhada.

Esta última categoria cruza-se com canalizações. Se o contador anda com tudo fechado, ou há uma zona quente num pavimento cerâmico, está a procurar uma fuga e não um problema de ventilação. Escrevemos sobre isso no guia sobre o calcário na água em Tavira, que também explica o teste do contador em dez minutos.

Perguntas frequentes

Porque é que a minha casa no Algarve tem bolor com um clima tão bom?

Porque a humidade relativa exterior no inverno em Portugal é muito alta, muitas vezes entre os 90 e os 100 por cento, e uma casa fechada e sem aquecimento equilibra-se com ela. O ar quente e húmido condensa depois nas paredes maciças frias, sobretudo do lado norte. As horas de sol não impedem isso, e uma casa que ninguém ventila é o ambiente ideal para o problema.

Devo isolar a parede para travar a condensação?

O isolamento por dentro aplicado para resolver condensação costuma piorar as coisas, porque a humidade migra para trás dele e fica encostada à mesma superfície fria, agora fora da vista. Ventilação, calor de fundo e afastar o mobiliário da parede tratam o mecanismo real. Se o isolamento fizer parte de uma remodelação maior, tem de ser pensado junto com a ventilação e não em vez dela.

Quando devo abrir as janelas no inverno?

Ao meio da tarde, quando o ar exterior está mais quente e mais seco. Dez minutos com janelas abertas em dois lados movem mais ar do que horas com uma janela em báscula, e arrefecem muito menos as paredes. No verão, faça o mesmo de manhã cedo ou ao fim do dia.

O bolor na minha casa é perigoso?

O bolor está associado a alergias e a sintomas respiratórios, e é por isso que a recomendação é usar luvas e máscara ao limpá-lo e ventilar a divisão primeiro. Quem tenha asma ou uma doença respiratória em casa tem mais razão ainda para resolver isto rapidamente em vez de conviver com ele.

A minha casa estava bem até trocarmos as janelas. O que aconteceu?

Retiraram a ventilação acidental. Os caixilhos antigos, as frinchas e a chaminé aberta estavam a trocar o ar continuamente. Os vãos vedados travam isso, por isso a humidade que a casa gera ou absorve agora fica lá dentro. A solução é ventilação deliberada, seja uma rotina de abrir a casa, extratores que funcionem de verdade, ou grelhas de ventilação nos caixilhos.

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