A vistoria que ninguém faz: o que verificar na canalização antes de comprar casa no Algarve

Uma casa em Tavira foi vista em fevereiro, com sol e as janelas abertas. Escritura em abril. Em julho, o rés do chão cheirava a esgoto, a água quente durava quatro minutos e apareceu uma mancha de humidade na parede do corredor. Nada daquilo estava escondido. Estava tudo visível em fevereiro, para quem soubesse onde olhar.

Comprar casa em Portugal envolve muita gente e nenhuma delas olha para a canalização. O agente imobiliário não olha. O notário não olha. A avaliação do banco serve para saber quanto vale o imóvel no mercado, não em que estado estão os canos lá dentro. E, desde 2024, nem sequer os documentos que antes obrigavam alguém a levantar a tampa continuam a ser exigidos no ato da escritura.

Sobra o comprador. Este guia é o que nós olharíamos numa casa desta zona antes de alguém assinar um contrato-promessa, escrito por quem passa a semana dentro destes edifícios. Leva uns quarenta minutos a fazer sozinho e a ideia é exatamente esta: custa muito menos do que aquilo que encontra.

Porque é que uma casa no Algarve precisa de uma lista própria

Os conselhos genéricos sobre compra de casa são escritos para casas genéricas. Na zona de Tavira há quatro condições locais que fazem a maior parte do estrago, e cada uma delas deixa marcas que se aprendem a ler.

A água aqui é dura, e nas zonas abastecidas por furos é muito dura. Isso significa calcário, e calcário significa aparelhos de água quente a render menos e tubagem a estreitar ao longo de décadas. Se quiser o retrato completo disso, escrevemos sobre o assunto no guia sobre o calcário na água em Tavira.

Muitas casas passam meses fechadas, o que é uma categoria de danos por si só: sifões que secam, vedantes que apodrecem, torneiras de segurança que gripam. As casas antigas do centro histórico guardam muitas vezes tubagem de aço galvanizado com décadas, que se corrói por dentro. E do lado de Santo Estêvão, da Luz de Tavira e da Conceição, uma boa fatia das propriedades rurais não está ligada nem à rede de água nem ao saneamento, funcionando com furo e fossa séptica, duas coisas que trazem papelada agarrada que quase nenhum comprador se lembra de pedir.

Nada disto é motivo para não comprar. É motivo para saber o número antes de fechar o preço.

A visita de quarenta minutos

Faça isto na segunda visita e não na primeira. Leve o telemóvel e fotografe tudo.

Peça que deixem correr a água durante dez minutos antes de chegar. Este pedido sozinho derruba quase toda a encenação. Uma casa em que todas as torneiras correram dez minutos diz a verdade sobre pressão, estabilidade da temperatura e água tingida. Uma casa testada a frio, com tudo parado desde a véspera, não lhe diz nada.

Depois, por esta ordem:

  1. Abra ao mesmo tempo a torneira mais afastada da entrada e o chuveiro. Repare na queda de caudal. Se o caudal se desfizer com dois pontos abertos, é tubagem incrustada ou subdimensionada.
  2. Deixe a água quente correr cinco minutos seguidos. Conte quanto tempo se mantém quente e veja se a temperatura oscila. Quatro minutos de água quente numa casa com duas casas de banho é um problema que vai herdar.
  3. Puxe todos os autoclismos, duas vezes. Depois fique a olhar para a sanita à procura de um fio de água que nunca chega a parar.
  4. Desenrosque um arejador de uma torneira. Ponha-o contra a luz. É o teste de dureza mais barato que existe.
  5. Espreite debaixo de todos os lavatórios e do lava-loiça com a lanterna do telemóvel. Procure crosta branca de minerais, zinabre esverdeado no latão, ferrugem nos casquilhos das mangueiras flexíveis e qualquer reparação feita com fita.
  6. Encoste a mão à parede por baixo de cada casa de banho e atrás de cada base de duche. Fria e ligeiramente húmida merece fotografia.
  7. Encontre a torneira de segurança e rode-a. Se quem está a vender não souber onde ela fica, já sabe como a casa foi mantida. Se ela não rodar, ponha isso no orçamento.
  8. Cheire os ralos de qualquer divisão que tenha estado fechada. Sifões secos resolvem-se num minuto, mas um cheiro que persiste depois de correr água aponta para algo estrutural.

O teste do contador, que ninguém faz

São trinta minutos a não fazer nada e é o teste mais valioso desta página inteira.

Feche todas as torneiras e todos os aparelhos que consumam água. Fotografe o contador, incluindo o ponteiro pequeno que regista caudais mínimos. Espere meia hora sem gastar uma gota. Fotografe outra vez.

Se a leitura mexeu, há água a ir para algum lado. Numa casa habitada pode ser uma válvula de autoclismo a verter. Numa casa vazia é mais provável que seja uma fuga enterrada, e nesta zona costumam aparecer debaixo de uma laje ou no tubo que alimenta o jardim. Em qualquer dos casos passou a ser um argumento de negociação em vez de uma surpresa que vai pagar em setembro. Se não conseguir localizar a origem, é exatamente para isso que existe a deteção de fugas com equipamento, e sai muito mais barato do que abrir paredes à procura.

Água quente: o que interessa mesmo

A água quente é a coisa mais cara de se enganar, porque a substituição dá obra e porque a avaria é sazonal, aparecendo precisamente quando a casa está cheia.

Comece por perceber o que lá está. Um termoacumulador é um depósito com resistência e ânodo de sacrifício lá dentro. Um esquentador aquece a água à passagem, sem acumulação. Os sistemas solares térmicos e as bombas de calor acrescentam um depósito e um circuito de apoio.

Procure O que significa
Data ou número de série na etiqueta A maioria dos depósitos dura na prática entre 10 e 15 anos, menos com água dura
Manchas de ferrugem por baixo do aparelho Corrosão do depósito, que não tem reparação
Pingo constante no tubo de descarga da válvula de segurança Problema de pressão ou da própria válvula, às vezes os dois
Estalidos ou ronco enquanto aquece Sedimento e calcário acumulados no fundo do depósito
Disjuntor que já disparou antes Muitas vezes uma resistência incrustada com a bainha fissurada
Água quente que acaba depressa Calcário a reduzir ao mesmo tempo a eficiência e a capacidade útil

Fotografe a etiqueta com o modelo. É a fotografia mais útil de toda a visita, porque permite a qualquer pessoa dizer-lhe a idade, a capacidade e o custo de substituição sem sequer entrar na casa. A nossa página de esquentadores e termoacumuladores tem os valores de reparação e de substituição, para conseguir pôr um número nisto antes de negociar.

Um aviso que vale só para o gás. Se a casa tem esquentador, caldeira ou placa a gás, peça o certificado de inspeção. As inspeções periódicas são obrigatórias, feitas por entidade reconhecida pela DGEG, e os certificados de habitação são válidos cinco anos. Quem vende e não consegue mostrar um não está necessariamente a esconder nada, mas você está a herdar o custo e o prazo.

Esgotos, e a pergunta a fazer antes de todas as outras

Comece pela pergunta que determina tudo o resto: a casa está ligada à rede de saneamento ou tem fossa séptica?

Faça-a sem rodeios e não aceite uma resposta vaga. Dentro de Tavira e à volta será quase sempre rede. No campo muitas vezes não é, e há bastante mais gente do que se imagina a vender uma casa sem ter a certeza da resposta.

Com saneamento público, as verificações são simples. Levante as tampas das caixas de visita no exterior, se conseguir. Água parada ou detritos visíveis dentro da caixa significam que o troço não está a escoar como devia. Pergunte se os esgotos alguma vez foram limpos com jato e com que frequência. Entupimentos repetidos numa casa antiga são quase sempre um problema de traçado e não de utilização, e é por isso que uma inspeção com câmara durante um desentupimento se paga uma vez, em vez de se pagar o mesmo entupimento todos os anos.

Fossas sépticas: os papéis que ninguém pede

Se a resposta foi fossa séptica, esta é a secção mais valiosa de toda a sua análise, e vai muito para além da canalização.

Uma fossa séptica em Portugal não é apenas um assunto privado. A rejeição de águas residuais com infiltração no solo está sujeita a título de utilização de recursos hídricos junto da autoridade ambiental, e a instalação obedece a regras municipais de localização, com distâncias mínimas a edifícios, poços, limites da propriedade e linhas de água. Uma fossa bem feita é um reservatório estanque e compartimentado, e o efluente à saída deve receber tratamento complementar dimensionado a partir de ensaios de percolação do solo daquele terreno.

Portanto, as perguntas a fazer, por escrito, antes de se comprometer:

  • Existe licença, e posso vê-la?
  • Onde fica exatamente a fossa, e onde fica o órgão de infiltração? Peça que lhe mostrem no terreno e não numa planta.
  • Quando foi limpa pela última vez, e por quem? Peça a fatura. Uma fossa que ninguém sabe datar é uma fossa que ninguém limpou.
  • Há furo, e a que distância fica da fossa e da zona de infiltração?
  • A que distância passa o coletor público?

Esta última pergunta traz um ferrão que apanha compradores todos os anos. Quando passa a existir rede pública disponível a curta distância do limite da propriedade, habitualmente referida como 20 metros, a ligação torna-se obrigatória e as soluções privativas têm de ser abandonadas: a fossa desligada, esvaziada, desinfetada e aterrada, e o furo para consumo humano abandonado também. As licenças já emitidas podem ser revistas ou revogadas a partir do momento em que a rede fica disponível.

Traduzido em dinheiro: se o coletor está a chegar àquela rua, você está a comprar um custo de ligação, um custo de desativação e possivelmente uma rede interior de esgotos nova. Se o coletor está longe, está a comprar uma obrigação de manutenção, porque enquanto não houver rede a entidade gestora fica vinculada a prestar o saneamento por meios móveis, ou seja limpeza da fossa, que você agenda e paga. Qualquer das duas respostas é aceitável. Não saber qual delas comprou é que não.

Furos e água particular

Muitas quintas à volta de Tavira bebem de um furo. Funciona bem, e é uma das razões pelas quais a propriedade rural aqui é atrativa. Mas traz três coisas que um comprador tem de esclarecer.

Os papéis. A captação de águas subterrâneas particulares está enquadrada na Lei da Água e no respetivo regime de licenciamento. As exigências variam com o uso, com a potência dos meios de extração e com o facto de a água se destinar ou não a consumo humano, e espera-se comunicação prévia à entidade licenciadora antes da utilização. Pergunte o que existe e peça cópias. Se não existir nada, conte com a regularização.

A água em si. Peça uma análise recente. A água de furo nesta zona costuma ser bastante mais dura do que a da rede pública, e a dureza é uma questão de equipamentos e não de saúde. Já os nitratos e a qualidade bacteriológica são questões de saúde, e essas quer vê-las analisadas em vez de assumidas.

O equipamento. Um furo é uma bomba, um vaso de pressão e um quadro de comando, tudo com vida útil finita e nada disso barato de substituir à pressa. Pergunte quando foi mudada a bomba e repare se o hidropressor arranca e para repetidamente com uma única torneira aberta, o que costuma indicar vaso de pressão em fim de vida.

Casas de banho: quanto custa mesmo uma remodelação

Os compradores fazem contas à casa de banho a partir do preço dos azulejos e da loiça. Numa casa algarvia com anos, essa é a metade pequena do trabalho.

O que faz mexer o número está por baixo: se os esgotos podem ficar onde estão, se a tubagem de alimentação vai ser substituída ao mesmo tempo, se o pavimento precisa de impermeabilização, e se mudar a sanita um metro obriga a picar uma laje estrutural. Uma casa de banho que mantém o traçado é um projeto completamente diferente de uma casa de banho que muda de traçado.

O conselho prático é mandar ver isso durante o processo de compra e não depois, porque a resposta altera quanto é que a casa vale para si. Um orçamento de remodelação de casa de banho feito em cima da tubagem real é um documento de negociação. Um palpite não é.

Se está a comprar para alojamento local

O alojamento local muda o perfil de risco por completo, porque num arrendamento a avaria acontece com estranhos dentro de casa e consigo a duzentos quilómetros.

Há três coisas que vale a pena verificar antes da compra e não depois da primeira reserva. Se a capacidade de água quente corresponde à lotação máxima que pensa anunciar, porque seis hóspedes e um termoacumulador de cinquenta litros dão reclamação garantida. Se cada máquina tem a sua própria válvula de corte, para que uma mangueira rebentada não obrigue a fechar a água da casa toda a meio de uma estadia. E se existe um corte geral que a pessoa das limpezas ou quem guarda as chaves consiga alcançar e saiba onde é.

Quem tem a casa longe costuma dar-se melhor com um acompanhamento contratado do que com números de emergência, que é precisamente a ideia por trás do apoio a alojamento local e das verificações de pré-época. O custo de uma verificação em maio é ridículo ao lado de uma reserva cancelada em agosto.

Documentos a pedir, mesmo que ninguém os exija

Desde 1 de janeiro de 2024 deixou de ser obrigatório apresentar a ficha técnica da habitação e a licença de utilização no momento da compra e venda. A alteração veio do Simplex urbanístico e serviu para acelerar transações. Também retirou uma rede de segurança que apanhava problemas automaticamente. O que não retirou foi o seu direito de os pedir, e a recomendação de quem trabalha na área continua a ser a mesma: peça-os durante a negociação, antes de assinar o contrato-promessa.

Documento Porque interessa para a canalização
Ficha técnica da habitação Descreve as características técnicas do edifício, onde exista. Aplica-se sobretudo a imóveis cuja licença de utilização foi requerida depois de 30 de março de 2004
Licença de utilização Confirma que o edifício é legalmente aquilo que diz ser, o que importa quando houve ampliações com canalização feita à posteriori
Certificado de inspeção de gás Inspeção periódica obrigatória por entidade reconhecida pela DGEG, com certificados de habitação válidos cinco anos
Licença da fossa e fatura da última limpeza Mostra se o sistema é legal e se tem manutenção
Registo ou licença do furo Mostra se a origem de água é legal
Faturas recentes de água e eletricidade Uma fatura de água sem explicação é uma fuga que ninguém mencionou
Faturas de trabalhos de canalização anteriores As reparações em edifícios têm garantia de cinco anos, e ela acompanha o imóvel

A última linha merece um parágrafo só para ela. O artigo 1225.º do Código Civil dá cinco anos de garantia às empreitadas de reparação de edifícios, e essa responsabilidade estende-se ao terceiro adquirente, não fica presa a quem mandou fazer a obra. Se a casa de banho foi refeita ano e meio antes de você comprar, aquela reparação pode ainda estar dentro da garantia. A fatura é o que prova que existiu. Pedir faturas antigas não é bisbilhotice, é dinheiro.

Doze sinais de alarme, por ordem de custo

Baratos de resolver e quase sempre cosméticos:

  • Chuveiros e arejadores incrustados
  • Sifões secos e cheiro a esgoto numa casa que esteve fechada
  • Uma torneira a pingar ou uma válvula de autoclismo a verter
  • Mangueiras flexíveis apodrecidas debaixo dos lavatórios

Intermédios, e a quantificar antes de fechar o preço:

  • Aparelho de água quente com mais de dez anos, ou que acaba depressa
  • Pressão que se desfaz com dois pontos de água abertos
  • Entupimentos repetidos que o vendedor menciona de passagem
  • Torneira de segurança gripada, ou ninguém saber onde ela está

Caros, e razão para chamar alguém antes de assinar:

  • Humidade numa parede partilhada com casa de banho, ou uma zona quente no chão
  • Um contador que anda com tudo fechado
  • Fossa séptica sem licença, sem localização conhecida e sem histórico de limpezas
  • Tubagem de aço galvanizado à vista numa casa antiga, sobretudo com água acastanhada depois de uns dias parada

O que é uma vistoria de canalização antes da compra

Se a visita levantou duas ou três coisas do fundo daquela lista, compensa mandar ver antes de assinar em vez de depois. Uma vistoria de canalização não é uma peritagem formal e não produz documento legal nenhum. O que produz é uma lista do que é preciso fazer, quanto custa e o que pode esperar, que é exatamente aquilo de que precisa numa negociação de preço.

Fazemos isto em Tavira, Cabanas, Santa Luzia, Conceição, Luz de Tavira e Santo Estêvão. Pode ver a zona que cobrimos e quanto custam a deslocação e os trabalhos mais comuns na página de preços, para também aí não haver surpresas. Se a casa que anda a ver é candidata a sério, mandar três ou quatro fotografias por WhatsApp costuma chegar para lhe dizermos se vale a pena a deslocação.

E se já comprou e alguma coisa desta página acabou de descrever a sua casa, é para isso que existem as urgências e o resto da lista de serviços. Quase tudo o que lá está começou por ser uma coisa que alguém decidiu não ir ver.

Perguntas frequentes

Existe alguma vistoria obrigatória à casa antes da compra?

Não existe nenhuma vistoria técnica obrigatória ao estado de conservação. A avaliação do banco serve para determinar o valor de mercado e não a condição do imóvel, e desde 2024 nem a ficha técnica da habitação nem a licença de utilização têm de ser apresentadas na escritura. Quem quer saber em que estado está a casa manda verificar por sua conta.

Ainda preciso da ficha técnica da habitação para comprar?

Deixou de ser exigida no momento da compra e venda desde 1 de janeiro de 2024, tal como a licença de utilização. Os documentos continuam a existir e a recomendação é pedi-los na fase de negociação, antes do contrato-promessa, porque acabar com a formalidade não acabou com os problemas que ela costumava revelar.

A casa tem fossa séptica. Isso é mau sinal?

Em si, não, e é normal em propriedades rurais sem saneamento. O que precisa de ter é a licença, a localização, a fatura da última limpeza e a distância ao coletor público mais próximo. Se a rede chegar a curta distância do limite da propriedade, a ligação passa a ser obrigatória e a fossa tem de ser desativada em condições, o que é um custo que convém conhecer antes de fechar o preço.

A partir de que idade um termoacumulador está no fim?

Nesta zona, trate qualquer aparelho com mais de dez anos como estando a aproximar-se da substituição, e com mais de quinze como uma substituição que está a comprar. A água dura encurta a vida da resistência e do depósito, por isso a idade pesa aqui mais do que sugerem as expectativas do fabricante. Fotografe a etiqueta e consegue orçamentar antes de negociar.

Posso mandar verificar a canalização antes do contrato-promessa?

Pode, e é esse o momento certo, porque é no contrato-promessa que ficam fixados o preço e as condições. Precisa da autorização de quem vende para entrar, o que é normal e raramente é recusado. Quem recusa uma vistoria à canalização acabou de lhe dizer uma coisa muito útil de graça.

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