Calima no Algarve: o que a poeira do Saara faz à sua casa e como a tirar em condições

Acorda, a luz que entra pelas portadas está estranha, e o céu ficou da cor de um chá fraco. O carro lá fora está coberto de qualquer coisa avermelhada. À tarde já está no terraço, nos peitoris, na mesa de fora e nos corrimãos brancos que lavou na sexta-feira.

Isto é a calima, e quem tem casa no Sotavento algarvio há mais de dois anos já perdeu pelo menos um fim de semana com ela. O que quase toda a gente faz a seguir é o que parece natural e é também o que está errado: pega num pano seco ou numa vassoura.

Este guia explica o que é a poeira, porque é que o método óbvio piora a situação, e como a tirar em condições, superfície a superfície. Cobre também aquilo em que ninguém pensa até ser tarde, que é o que a poeira faz ao interior de uma casa que ficou com as janelas abertas.

O que é a calima, na prática

Calima é o nome que se dá a uma intrusão de poeiras minerais levantadas no Saara e no norte de África e transportadas para norte por ventos de altitude. Chega a Portugal com regularidade e atinge muitas vezes primeiro a Madeira e as Canárias antes de avançar para o continente.

Visualmente não se confunde com nada. O céu fica esbranquiçado ou amarelado durante o dia, os pores do sol ganham tons alaranjados, a visibilidade baixa e tudo o que está exposto apanha uma película de pó. As partículas incluem as frações finas que se medem como PM10 e PM2,5, e a pluma pode transportar pólen, fungos, bactérias e outros microrganismos além do conteúdo mineral.

Não é um acontecimento raro e está a ser cada vez menos raro. Um estudo que comparou os períodos de 2003 a 2019 e de 2020 a 2022 concluiu que houve um aumento muito significativo da frequência das intrusões de poeiras do deserto na Europa, com os episódios recentes a serem cerca de oito vezes mais frequentes do que antes, incluindo nos meses de inverno. Os episódios são comuns no inverno e no início da primavera, o que apanha desprevenida muita gente que assume que isto é coisa de verão.

É um problema de saúde?

Para a maioria dos adultos saudáveis é um incómodo e não um perigo, mas as autoridades de saúde emitem recomendações e vale a pena segui-las se lhe disserem respeito.

Durante os episódios sobem as concentrações de PM10 e PM2,5, que são precisamente as partículas associadas ao agravamento da asma, da bronquite, da doença pulmonar obstrutiva crónica e de problemas cardiovasculares. A Direção-Geral da Saúde recomenda que crianças, idosos e pessoas com doenças respiratórias ou cardiovasculares permaneçam em casa sempre que possível, que se mantenham as janelas fechadas, que se evitem esforços físicos e atividades ao ar livre, e que os doentes crónicos mantenham a medicação habitual. Em caso de agravamento dos sintomas, a orientação é contactar a linha SNS 24, através do 808 24 24 24.

A versão prática para uma casa: feche as janelas cedo em vez de tarde, e faça a limpeza do exterior depois de o episódio passar e não durante. Lavar um terraço a meio de um episódio de poeiras é ao mesmo tempo inútil e o pior momento possível para estar lá fora com esforço.

Porque é que o pano seco piora tudo

Esta é a parte mais útil de toda esta página.

A poeira do Saara é extremamente fina e mineral, o que significa que as partículas são duras e ligeiramente abrasivas. Daqui saem três consequências.

Um pano seco não levanta a poeira, arrasta-a. No vidro e nas superfícies pintadas isso produz riscos de sujidade visivelmente piores do que a poeira era. Num carro, e em superfícies polidas ou envernizadas dentro de casa, arrastar partículas minerais abrasivas por cima do acabamento é como se ganham micro-riscos.

Uma vassoura no terraço levanta a poeira outra vez para o ar, onde boa parte volta a assentar na hora seguinte, muitas vezes em cima do mobiliário que acabou de limpar. E nos tecidos, escovar empurra as partículas mais para dentro da trama em vez de as tirar, que é a razão pela qual as almofadas sacudidas costumam ficar com pior aspeto.

A regra da calima é simples: primeiro água, pano só depois. Tudo o que for a seco ou está a mudar o problema de sítio ou está a esfregá-lo para dentro.

A ordem certa, e porque é que a ordem importa

É a sequência que separa um trabalho de uma hora de um trabalho que se faz duas vezes.

Trabalhe de cima para baixo e de dentro para fora. Corrimãos e guardas antes das mesas. Mesas antes das cadeiras. Tudo isso antes do chão. E todas as superfícies exteriores antes de tocar nos vidros virados para elas, porque lavar um terraço atira um borrifo fino de água com poeira para qualquer porta ou janela ali ao lado, e o vidro que limpou primeiro vai precisar de ser feito outra vez.

  1. Espere que o episódio passe. Limpar a meio é trabalho deitado fora.
  2. Passe água nas superfícies fixas mais altas: corrimãos, guardas, apliques, estrutura do toldo.
  3. Lave o mobiliário de exterior com água e um detergente suave, enxaguando em vez de limpar logo a seco.
  4. Trate as almofadas e os tecidos à parte, como se explica abaixo.
  5. Lave o chão do terraço com mangueira ou esfregona, empurrando para o ralo.
  6. Só agora limpe vidros, caixilhos e peitoris.
  7. Acabe nas portadas e nas suas lâminas, que retêm mais pó do que qualquer outro elemento exterior.

Superfície a superfície

Superfície Fazer Não fazer
Vidros e janelas Passar água primeiro e limpar com o vidro molhado, com rodo ou microfibra húmida Borrifar limpa-vidros por cima do pó seco e passar o pano. Fica riscado sempre
Chão do terraço Mangueira, ou esfregona com muita água mudada com frequência Varrer a seco. Muda a poeira de sítio em vez de a tirar
Almofadas de exterior Aspirar primeiro, se der, e lavar as capas depois de um episódio forte Sacudir ou escovar. Empurra as partículas para dentro do tecido
Corrimãos pintados Passar água e depois lavar com detergente suave Limpar a seco. Grão mineral fino mais pressão dá marcas
Portadas e estores Pano húmido, lâmina a lâmina, enxaguado muitas vezes Espanador. Espalha a poeira pelo ar dentro de casa
Carros Passar bem por água antes de lhe tocar Limpar com pano seco. É assim que a pintura fica riscada
Painéis solares Passar água limpa assim que o episódio acabar Deixar estar. A deposição reduz mesmo a eficiência dos painéis
Zona à volta da piscina Lavar para longe da água e verificar o filtro depois Mandar tudo com a mangueira para dentro da piscina e depois estranhar o filtro entupido

A linha dos painéis solares merece ser desenvolvida, porque é o custo que ninguém atribui à calima. A deposição de poeiras reduz a eficiência dos painéis solares, e numa região com tantas instalações como esta, um sistema por lavar depois de um episódio forte está a custar dinheiro em silêncio durante semanas.

Dentro de casa: a parte para que ninguém se prepara

Se as janelas estavam abertas quando a poeira chegou, e num verão algarvio normalmente estavam, tem agora uma película mineral fina em todas as superfícies horizontais da casa. É subtil ao ponto de as pessoas muitas vezes nem a identificarem como pó, e o que notam é que as superfícies estão ligeiramente ásperas ao toque.

Dentro de casa aplica-se a mesma regra. Microfibra húmida, nada de panos secos, nada de espanadores, e nada de aspirador sem um filtro decente, porque um filtro fraco limita-se a devolver as partículas finas ao ar da divisão onde está.

Os sítios onde ela se acumula e que as pessoas falham: por cima dos aros das portas, os varões das cortinas, o topo dos rodapés, as calhas das portas de correr e as redes mosquiteiras, que funcionam como uma armadilha de pó muito eficiente e depois devolvem tudo à divisão sempre que entra uma aragem. As redes ganham-se em ser lavadas lá fora e não limpas no sítio.

Se tem alojamento local

A calima tem uma forma própria de custar dinheiro num alojamento, e não é pelo tempo de limpeza.

As casas aqui alugam-se pelo espaço exterior. Um hóspede que chega às quatro da tarde a uma casa cujas fotografias mostram um terraço luminoso, e encontra a mesa e as almofadas cobertas de uma película avermelhada, lê aquilo como uma casa que não foi limpa. Essa perceção não distingue entre poeira que chegou na quarta-feira e poeira que chegou vinte minutos antes do check-in.

Duas medidas práticas. A primeira: acompanhe a previsão de intrusões de poeiras como acompanha a previsão de chuva, e inclua uma passagem pelo exterior na limpeza de mudança nessas semanas, mesmo que normalmente não esteja incluída. A segunda: guarde as almofadas dentro de casa entre reservas durante as épocas de poeiras, o que não custa nada e tira do caminho a maior parte do problema.

Se apanhou um episódio forte e tem hóspedes a chegar, é exatamente para isto que existe uma limpeza profunda pontual, e lavar terraços da poeira da calima faz parte do que isso cobre por cá.

O que fazer enquanto o episódio decorre

Lista curta, porque quase tudo aqui é sobre não criar trabalho para depois.

  • Feche janelas e portadas, sobretudo do lado de onde vem o vento.
  • Recolha almofadas e tecidos se conseguir fazê-lo sem passar vinte minutos lá fora.
  • Tape ou arrume o que tiver acabamento delicado e viva no terraço.
  • Adie a roupa que fosse secar na rua. Lençóis estendidos durante um episódio entram pior do que saíram.
  • Não lave o carro nem o terraço. Vai ter de fazer as duas coisas outra vez.
  • Ponha o ar condicionado em recirculação em vez de admissão de ar exterior, onde essa opção existir.

Depois do episódio: a versão de vinte minutos

Se não tem uma manhã inteira, esta é a ordem que tira a maior parte do problema visível em cerca de vinte minutos, num terraço de apartamento normal.

Passe a mangueira nos corrimãos e no chão. Limpe a mesa e as cadeiras com um pano molhado, enxaguando-o muitas vezes em vez de tentar fazer tudo numa passagem só. Limpe os vidros com o vidro molhado, no fim. Deixe as portadas e as redes mosquiteiras para quando tiver mais tempo, porque são o elemento mais demorado e o menos visível para quem não anda à procura.

Depois verifique duas coisas de que toda a gente se esquece: o ralo do terraço, que fica com a poeira lavada acumulada em forma de lodo fino, e o filtro da piscina, se tiver.

Quando vale a pena chamar alguém

Um episódio isolado num terraço de apartamento é trabalho doméstico. Há três situações que não são.

Uma casa que esteve fechada ao longo de vários episódios, em que a película se acumulou durante meses e não durante dias e se juntou ao sal e à humidade do inverno. Uma moradia com muito espaço exterior, toldos, várias portadas e zona de piscina, onde o trabalho se mede em meios dias e não em horas. E qualquer casa com hóspedes a chegar em que o espaço exterior é central para a reserva.

Lavamos terraços e mobiliário de exterior da poeira da calima como parte das limpezas profundas em Tavira, Cabanas, Santa Luzia e na zona rural à volta de Santo Estêvão e da Luz de Tavira. Se for um problema recorrente e não pontual, incluir uma passagem pelo exterior na limpeza regular durante as épocas de poeiras sai muito mais barato do que limpezas de emergência repetidas, e pode ver o que cobrimos na página de áreas.

Perguntas frequentes

O que é a calima, exatamente?

É o nome comum de uma intrusão de poeiras minerais vindas do Saara e do norte de África, transportadas para norte por ventos de altitude. Em Portugal aparece tipicamente como um céu amarelado ou esbranquiçado, menos visibilidade, pores do sol alaranjados e uma película fina avermelhada em todas as superfícies exteriores. Atinge muitas vezes a Madeira e as Canárias antes do continente.

A poeira do Saara é perigosa?

Para a maioria dos adultos saudáveis é um incómodo. As concentrações de PM10 e PM2,5 sobem durante os episódios, e as autoridades de saúde recomendam que crianças, idosos e pessoas com doenças respiratórias ou cardiovasculares permaneçam em casa sempre que possível, mantenham as janelas fechadas e evitem esforço ao ar livre. Os doentes crónicos devem manter a medicação habitual e contactar a linha SNS 24 se os sintomas piorarem.

Porque é que o vidro fica riscado quando limpo a poeira?

Porque a poeira é fina e mineral, e um pano seco ou pouco húmido arrasta as partículas pelo vidro em vez de as levantar. Passe água primeiro e limpe com o vidro molhado. É o mesmo princípio que explica porque é que limpar um carro empoeirado com um pano seco arrisca riscar a pintura.

Qual é a época da calima no Algarve?

Os episódios são frequentes no inverno e no início da primavera, impulsionados por ventos fortes e por determinados padrões atmosféricos, mas acontecem ao longo do ano e tornaram-se bastante mais frequentes nos últimos anos. Tratar isto como fenómeno só de verão é a razão pela qual as pessoas são apanhadas de surpresa em fevereiro.

A poeira afeta os painéis solares?

Afeta. A deposição na superfície do painel reduz a eficiência, por isso vale a pena passar água limpa depois de um episódio forte em vez de esperar pela próxima chuva, que pode até vir carregada de mais poeira.

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